A propósito do “escândalo” da partilha pelo Facebook de dados pessoais dos utilizadores, vale a pena irmos um pouco mais longe e perceber, muito provavelmente, que o verdadeiro problema… somos nós.

Por esta altura, quem lê estas linhas já deve estar a par das últimas notícias sobre o Facebook, relativamente à partilha de dados pessoais com uma empresa que os terá usado, entre outras coisas, para tentar interferir nos resultados das últimas eleições nos EUA.

Não é exatamente sobre isso que pretendo escrever. Para se colocar a par do que se passou pode espreitar aqui [https://www.theguardian.com/technology/2018/mar/24/facebook-week-of-shame-data-breach-observer-revelations-zuckerberg-silence]. Mas leia também este artigo, do final de 2017, para perceber que nada disto é absolutamente novo [https://tictank.pt/2017/10/19/contas-do-facebook-e-do-twitter-acedidas-por-agencia-de-espionagem/].

O que se passa é que vender os nossos dados pessoais é o negócio do Facebook – desde sempre. O “escândalo” de que se fala não se prende nem com algum “hack” (acesso não autorizado aos dados, feito através de alguma brecha de segurança) nem com o facto de o Facebook recolher os nossos dados (algo que consentimos explicitamente ao criarmos uma conta nesta rede social).

A “breach” (“brecha”, à letra) de que os media têm falado é, na realidade uma “breach of confidence”. O que foi quebrada não foi a segurança do sistema informático (embora isso possa ter acontecido anteriormente e noutras circunstâncias); o que foi quebrada foi a “confiança” que o Facebook tinha depositado em quem tinha garantido que não iria usar os dados para os efeitos que efetivamente usou e que os apagaria quando tal lhe foi pedido.

E claro que houve outra coisa que foi quebrada (e que agora Mark Zuckberg se apressa a tentar emendar): a confiança entre o Facebook e os seus utilizadores.

O cliente ou o produto

Mas vamos voltar aos que nos interessa. Como é que chegámos aqui? Bem, na realidade, a culpa de tudo isto é… nossa. E quando digo “nossa” digo que é minha, sua, de todos em geral e de ninguém em particular.

Porquê? Simples: porque nesta economia digital em que vivemos, ninguém quer pagar por nada. E como as coisas não são grátis (quanto é que pensa que custa manter e gerir a infraestrutura de TI necessária a manter o Facebook em funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias do ano?), o pagamento em vez de ser feito diretamente – através de uma taxa de subscrição, por exemplo – é feito de forma indireta. Que, neste caso, significa “pagar” através do valor representado pelos nossos dados.

Na prática, também não tem de se preocupar demasiado, porque o Facebook e os seus clientes (não, o cliente não é você!, já lá irei) não querem tanto saber o nosso nome, morada e telefone, mas sim quais as nossas preferências e o nosso perfil demográfico – idade, género, profissão, preferências, área geográfica, escalão remuneratório...

Só para os mais distraídos é que isto é novidade. Há um velho adágio que diz que «na economia digital, se não és o cliente, és o produto». Isto, na melhor das hipóteses, porque por vezes somos ambos ao mesmo tempo!

Ora nós, utilizadores de redes sociais (e motores de busca, e sistemas de webmail, e de comércio eletrónico, e…) somos definitivamente o produto. O cliente, para o Facebook, são os seus anunciantes, os quais beneficiam do facto de o Facebook saber quem somos e do que gostamos, de forma a oferecer o melhor retorno possível face ao investimento em publicidade.

Na maioria dos casos, isso até beneficia os utilizadores – não prefere ver anúncios relevantes para si em vez de ser bombardeado, como na TV, com mensagens que não lhe interessam? É essa a principal diferença entre a publicidade veiculada pelos “velhos media” face à que nos é oferecida pelos canais digitais.

E a culpa é…

Mas voltemos à “vaca fria”. De quem é a culpa disto tudo? É fácil apontar o dedo ao Facebook, que efetivamente traiu a confiança de (tanto quanto se sabe) 50 milhões dos seus cerca de dois mil milhões de utilizadores. E sim, devemos preocupar-nos com isto e exigir, tanto quanto possível, que nada disto volte a acontecer.

Mas o problema com as redes sociais é que funcionam tanto melhor quanto mais de nós partilhamos com os outros. E somos nós que começamos por dar de mão beijada ao Facebook todos os dados que a empresa depois usa – idealmente para fins legais e legítimos.

Até podemos criar um perfil falso com um nome inventado e uma foto roubada de uma pesquisa do Google. Mas o Facebook não se importa. O que o Facebook pretende – e é isso que tem valor – é saber que a pessoa atrás desse perfil (mesmo que inventado!) tem preferência por determinadas marcas, certas inclinações políticas, gosta das marcas a, b ou c, etc. No final do dia, essa “pessoa”, seja ela real ou inventada por si, irá mesmo consumir ou adquirir algo e, para o Facebook e os seus clientes, é isso que interessa. É isso que tem valor.

Podemos ter uma conta no Facebook e evitar a recolha de dados sobre nós? Sim, se deixarmos de “gostar” de páginas, de fazer “likes” em posts de amigos e conhecidos, de responder a outros, se deixarmos de usar o Messenger, de criar (e ir a) eventos, se evitarmos responder a sondagens e “passatempos”, se não jogarmos... Ou seja: é possível ter uma conta no FB e evitar a recolha de dados se... praticamente não usarmos a conta para nada.

[veja o final deste artigo para saber o que pode realmente fazer para minimizar o que o Facebook sabe sobre si]

Porque a alternativa é... Bem, neste momento, alternativa ao Facebook não existe sequer. A “alternativa” é mesmo apagar a conta, caso estejamos a sentirmo-nos desconfortáveis sabendo aquilo que já devíamos saber, que é a inevitabilidade da recolha, tratamento e partilha de dados do Facebook com terceiros – sejam esses terceiros os seus anunciantes ou empresas de perfil duvidoso e intenções pouco transparentes.

No fundo, a alternativa a estar no Facebook desta forma é uma e só uma: pagar para usar. E ponha o dedo no ar quem gostaria de optar por essa opção... se existisse sequer.

E aqui temos outro problema: quanto custaria pagar por aquilo que agora é financiado pela publicidade, a qual por sua vez é paga ao Facebook por anunciantes que tiram partido do quanto a rede social sabe sobre nós? Muito mais do que pensa. Conheço uma empresa portuguesa que possui um website de elevado tráfego “pago” com banners de publicidade geridos pela Google. Ela já fez as contas e concluiu que mesmo cobrasse a todos os visitantes (ou até mesmo apenas uma parte deles) uma pequena taxa anual para acesso ao site sem publicidade ia perder dinheiro. E muito.

Não quero ser chato e concluir dizendo que não há nada fazer. Haver há, começando por efetivamente usar os controlos de privacidade do Facebook e evitando partilhar o que não queremos mesmo partilhar.

Mas já agora, não tranquem a porta deixando as janelas abertas: então e a Google? Ou ainda não perceberam o que significa estarem “logged in” para poderem aceder aos vossos “Favoritos” no Chrome em qualquer dispositivo? Ou manterem a conta do Gmail ligada enquanto fazem pesquisas? Ah, e ainda não perceberam também que o conteúdo do que têm no Gmail é usado para “targeting ads”?

Não se esqueçam, de passagem, de cancelar também as contas de Netflix, do Spotify e, de passagem, desligarem o “modo inteligente” da set-top box que o vosso ISP lá pôs em casa para verem TV de forma “personalizada”. Fazer compras na Amazon? Esqueçam lá isso. Cartões dos supermercados? Nem pensar! E quanto ao acesso WiFi grátis que uma conhecida rede de cinemas em Portugal irá disponibilizar aos seus clientes, é melhor pensar duas vezes no que significa “grátis”…

A única forma de evitarmos tudo isto é ficarmos “off grid” e irmos viver nas montanhas – mas sem rede celular, claro! Como isso não me parece muito prático, o melhor mesmo é ir usando bom senso, partilhar só o que faz sentido, usar os serviços “grátis” de forma regrada e, sempre que possível, optar por serviços equivalentes, mas pagos.

Porque, repitam depois de mim, “se não somos o cliente, somos o produto”. Sempre.

O que fazer para se proteger

Facebook.
Não é preciso deixar o Facebook para usar a rede social de forma mais segura. Aponte o browser para https://www.facebook.com/safety/tools e altere as definições da sua conta.

Evite usar a conta do Facebook para se registar noutros serviços – só irá facilitar a partilha dos dados com terceiros…

Google.
Aproveite o balanço e faça o mesmo com o Google. Em https://privacy.google.com/take-control.html encontra ferramentas que lhe permitem limitar a forma como o Google recolhe e partilha a sua informação.

Evite usar o motor de pesquisa Google quando está ligado como uma conta Gmail, uma vez que a pesquisa que realizou vai ficar associada à sua conta. O mesmo acontece com uma conta Outlook.com ou Live.com quando usa o Bing. Se é mesmo paranoico, passe a usar um motor de busca como o DuckDuckGo.com, que não recolhe dados pessoais.

Browsers.
O seu browser possui uma opção chamada “Do Not Track” (https://en.wikipedia.org/wiki/Do_Not_Track). O mais provável é estar desligada. Ative-a de forma a limitar os dados partilhados pelo seu browser com os sites que visita. Veja como no Chrome (https://support.google.com/chrome/answer/2790761), Edge e IE (www.online-tech-tips.com/internet-explorer-tips/send-do-not-track-and-enable-tracking-protection-in-ie-11-edge) e Firefox (https://support.mozilla.org/pt-PT/kb/como-ativar-funcionalidade-nao-monitorizar-do-not-track).

Os browsers têm também modos “seguros” de navegar. O problema é que estes modos (que, entre outras coisas, desligam os “cookies”) por vezes resultam numa experiência de navegação medíocre, porque estamos a negar aos sites informação básica que eles por vezes necessitam para personalizar a nossa experiência…

Email.
Use contas de email “descartáveis” para se registar em sítios onde tem dúvidas sobre o destino dos seus dados pessoais. Crie uma conta alternativa no Google, Yahoo!, Outlook.com ou Mail.com (ou outro do seu agrado) e use-a para esse efeito.

Pague.
Alguns serviços (e jogos) são do tipo “freemium” – ou seja, têm uma versão grátis (“free”) e outra premium. Mas se em muitos casos esta dicotomia se prende com as funcionalidades disponíveis em cada um dos modos, noutros a parte grátis é simplesmente paga com a exibição de publicidade – se não a quer ver, pague para aceder à versão premium.

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