Há 15 anos, Dove lançava a campanha Evolution para abordar a manipulação de imagens na publicidade, numa crítica ao uso excessivo de ferramentas como o Photoshop. Hoje, a marca volta a pronunciar-se sobre a manipulação digital, que se transformou num fenómeno à escala mundial,  pois já não são apenas as grandes indústrias ou os fotógrafos profissionais que recorrem a esta prática: somos todos nós.

Com aplicações de edição de imagem cada vez mais intuitivas e filtros que automaticamente aplicam efeitos nas fotografias, qualquer pessoa consegue facilmente melhorar a sua aparência sem precisar de ser um perito em edição de imagem. Mas quais serão as consequências?

“Sem dúvida que as redes sociais se tornaram num espaço que fomenta a autoexpressão e a criatividade dos jovens, mas aquilo que temos visto é que quando os filtros são mais utilizados para criar padrões de beleza irreais do que como forma de entretenimento, então estamos a falar de consequências negativas para a autoestima dos jovens, que se sentem pressionados em manipular a sua imagem até atingir uma perfeição, que nem sequer existe na vida real”, alerta Firdaous El Honsali, Diretora Global de Comunicação e Sustentabilidade de Dove.

A nova campanha Reverse Selfie (em português, Selfie Invertida), vem chamar atenção para a forma como a distorção digital está a fragilizar a autoestima dos jovens e revela dados alarmantes que comprovam a gravidade do problema à escala global. O estudo Detoxify Beauty, (estudo foi conduzido pela agência de estudos de mercado Edelman Data & Intelligence, através de um inquérito online realizado em março de 2021 a uma amostra de 510 raparigas, entre os 10 e os 17 anos) realizado no âmbito da campanha, foi conduzido em 10 países, incluindo em Portugal, com o objetivo de avaliar como as redes sociais e a manipulação digital estão a impactar os  comportamentos e o quotidiano das gerações mais jovens.

OS PRINCIPAIS RESULTADOS EM PORTUGAL

A manipulação digital como meio para atingir a beleza ideal nas redes sociais

  • 76% das raparigas com 13 anos usam filtros ou recorrem a aplicações para mudar a sua aparência nas fotografias. Em média, têm 12 anos quando utilizam pela primeira vez este tipo de funcionalidades.
  • 64% das raparigas tentam editar ou esconder pelo menos uma característica do seu corpo antes de publicarem uma fotografia de si mesmas.
  • 41% das jovens com baixa autoestima preferem ver-se em fotos editadas e 25% lamentam que na vida real não possam assemelhar-se à pessoa que mostram online.
  • São precisas, em média, 9 selfies de “tentativa” até que as jovens consigam uma fotografia que gostem para publicar nas suas redes sociais.
  • 45% das raparigas gastam mais de 10 minutos a preparar-se para uma selfie.
  • As jovens com baixa autoestima são mais vulneráveis à manipulação digital: afirmam que embora o processo de edição seja divertido (69%) e criativo (59%), também o fazem porque se preocupam com os comentários negativos que poderiam receber caso não manipulem a sua imagem (37%) e porque querem sentir-se mais confiantes com elas mesmas (45%).

As jovens gostavam que as redes sociais fossem mais representativas da beleza feminina

  • 63% das inquiridas afirmam que se as fotografias publicadas nas redes sociais fossem mais representativas da beleza feminina, isso contribuiria para que fossem raparigas mais confiantes.
  • 59% gostavam que as influenciadoras digitais representassem verdadeiramente diferentes tipos de beleza nas redes sociais.
  • 30% das jovens com baixa autoestima sentem-se menos bonitas quando veem fotos de celebridades/influenciadoras nas redes sociais.
  • Apenas metade das jovens consideram que as redes sociais são um fator positivo nas suas vidas e pouco mais de metade (59%) que podem ser elas mesmas nas redes sociais.
  • 62% desejavam que as redes sociais correspondessem mais à vida real.

O papel da escola na construção da autoestima

  • 78% das raparigas gostavam que a escola tivesse um papel mais ativo na construção da autoestima, ensinando-lhes a sentirem-se bem nos seus próprios corpos.
  • 76% também referem que desejavam que a escola lhes ensinasses como valorizar as diferenças dos outros.

Na perspetiva da psicóloga Filipa Jardim da Silva, os números são preocupantes e não deixam mentir: “estamos perante uma geração que procura nas redes sociais a validação dos outros por via dos likes ou dos comentários, quando seria muito mais benéfico que as redes sociais fossem verdadeiramente um espaço onde os jovens se pudessem autoexpressar livre e criativamente, sem receio da opinião dos outros”.

Filipa Jardim da Silva alerta ainda para as consequências a longo prazo que a manipulação digital poderá ter na personalidade e autoestima dos jovens. “A partir do momento em que uma adolescente manipula continuamente a sua imagem nas redes sociais, na tentativa de alcançar padrões de beleza que não correspondem à vida real, está a alimentar uma falsa autoestima, o que reduz a sua qualidade de vida. A insegurança e a autocrítica permanentes minam a forma como o jovem se vê, como se relaciona com os outros e como toma decisões. Assim, há um risco aumentado de estados de ansiedade e depressão, as relações sociais e amorosas são prejudicadas, há um impacto negativo no desempenho académico e verifica-se uma vulnerabilidade acrescida para o desenvolvimento de distúrbios de comportamento alimentar, bem como do consumo de substâncias”, explica.

A psicóloga realça também que os pais e os professores são peças-chave na construção da autoestima dos jovens: “A família e a escola têm um papel fundamental na construção da autoestima dos jovens. É importante que os adultos de referência valorizem cada jovem, ajudando-os a descobrirem as suas forças e talentos e respeitando a sua individualidade, mais do que fomentar comparações injustas. Separar os comportamentos da identidade pessoal e valorizar mais o processo de aprendizagem do que o resultado concreto são dois princípios essenciais na construção de uma boa autoestima”.

 

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